Eu tenho um câncer, mas eu não sou um câncer.

Quando eu tratava o câncer, sentia dores terríveis e sofria bastante com os efeitos colaterais dos quimioterápicos. Enjoo, náuseas, dores de cabeça, dores no estômago, fadiga, cãibras, perda de paladar e olfato, ou seja: estava maravilhosa a minha vida (he he he). Eu estava muito fragilizada. Entrei em depressão e precisava muito ser acolhida porque, naquele momento, eu não conseguia ver um futuro no qual aquele desconforto todo iria acabar.

Mas acabou! E agora que acabou, eu me pergunto: como é que podemos acolher quem está fragilizado? Como podemos auxiliar quem está em sofrimento e não consegue ter uma perspectiva boa em relação ao seu próprio futuro?



Sempre digo que as oportunidades aparecem de formas muito sutis, camufladas entre os eventos do dia-a-dia. Tive a oportunidade de auxiliar meu próprio sogro que, em 2020, descobriu um câncer no estômago. Até então nossa comunicação dava-se exclusivamente por chamadas de vídeo, visto que ele morava em Planalto, uma cidade no interior da Bahia e eu e meu esposo moramos em Manaus. A descoberta do câncer nos aproximou ainda mais pois, de todas as pessoas com quem ele tinha contato, eu era a única que, de fato, compreendia exatamente pelo que ele estava passando.


Resolvemos visitá-lo em Novembro de 2020 nos deparamos com meu sogro muito fragilizado, deitado no sofá, com uma aparência triste e olhar cabisbaixo, como se tivesse aceitado o seu destino. Tudo isso porque ele ouviu do seu Oncologista que "não havia mais nada a ser feito e era só esperar a hora chegar". Se o próprio médico disse isso, por que ele iria lutar para viver? Não lhe foi dado acompanhamento nutricional e também não lhe foram dadas recomendações para que, ainda que de forma paliativa, ele pudesse ter conforto e bem estar durante o tempo que lhe restava.


Eu disse a ele que o câncer não era um sinônimo de morte. Eu mesma estava tratando um câncer há 3 anos e estava ali, vivinha da silva, ao lado dele, conversando. Nós o estimulamos a levantar do sofá e andar pela casa, brincar com a netinha e alimentar-se. Durante os dias em que ficamos em Planalto, ele foi conosco à casa de parentes e até Vitória da Conquista uma cidade vizinha.

Por vezes eu, também com dor, sentei junto a ele no sofá e ficamos ali, compartilhando aquele momento em que não era necessário falar nada, pois a compreensão e a empatia nos bastavam.


Também conversei com os parentes para que, na medida do possível, não o tratassem como um doente, porque, apesar de ele ter um câncer, ele não era um câncer. O câncer nos dá sim muitas limitações, mas não define quem somos, e, a nossa tarefa enquanto parentes de alguém que está enfrentando uma batalha tão difícil, é darmos suporte e apoio emocional, e podemos fazer isso de inúmeras formas:

  • Dizendo "eu te compreendo", "eu respeito seu momento", "estou do seu lado";

  • Buscando comidas que que a pessoa goste e chamando-a para cozinhar com você ou surpreendê-la com um jantar especial;

  • Convidando os amigos para que façam-lhe uma visita e deem boas risadas juntos;

  • Comprando um quebra-cabeças ou um jogo que possa mantê-lo entretido nos momentos de tédio;

  • Convidando para participar de um grupo de apoio onde ele possa conviver com mais pessoas que têm a mesma doença, compartilhar seus desafios, desabafar e, até mesmo, dar boas risada.

Se você não souber como agir, não tem problema! A pessoa não foi preparada para sentir dores e você também não foi preparado para cuidar de alguém com limitações. Quando não souber o que fazer, pergunte!


Apenas lembre que a pessoa que está enfrentando um quadro depressivo não está assim porque ela deseja ou porque ela quer. A dor nos entristece e suga as nossas energias, e não é algo que nós planejamos. É muito difícil levantar todos os dias de manhã quando passamos a noite inteira virando na cama de um lado para outro tentando encontrar a melhor posição ou vomitando tudo que comemos, e, justamente por você não saber como proceder e por não ter recebido treinamento para isso, é natural que você sinta-se confuso e irritado. Procure por amparo Psicológico você também, porque, quem muito cuida, também precisa ser cuidado.


Em memória de Eleone Matos Baia, grande homem que concedeu-me honra de ser reconhecida como nora.