Refém da dor.

Eu não gosto de me olhar no espelho. Não me reconheço, ou, pelo menos, ainda não aprendi a me reconhecer e me aceitar dentro da nova realidade em que eu estou inserida. O problema é que estou inserida nesta realidade há mais de 3 anos, sempre na expectativa de que em breve isso tudo vai passar, mas não passa.


Sentir dor é um saco. Eu não mando na dor: é ela quem manda em mim. Eu não sei por que ela veio, eu não sei por que é que eu sinto dor, mas nem sempre foi assim. Eu tinha uma vida antes do câncer, da Fibromialgia e da Artrite Reumatoide, e, particularmente, eu adorava a minha vida. Eu costumava andar de salto alto, o cabelo estava sempre brilhoso, as unhas sempre feitas e a maquiagem impecável. Eu decidia como, quando e onde. Eu praticava Muay Thai, pulava corda e fazia Stand Up Paddle. Sempre adorei atividades ao ar livre e nunca suportei academia (como não suporto até hoje).


Então, veio o câncer e me roubou o cabelo. Depois me roubou o paladar e o olfato. Incluiu em minha rotina dores que eu não consigo descrever porque nem eu as entendia, e essas dores foram me roubando as coisas que eu mais gostava: Muay Thai e Salto Alto. Não havia nenhuma contraindicação médica, mas o meu corpo simplesmente não me obedecia. Então, veio a depressão- e eu, que sempre fui uma pessoa extremamente positiva e alegre, demorei a aceitar que estava acontecendo comigo, porque a depressão só acontecia com os outros.


A dor me roubou a autonomia. Eu não decido mais para onde eu vou, por exemplo, lugares cujo acesso dá-se somente por escadas. Recentemente eu e meu esposo viajamos a Porto de Galinhas e minha maior dificuldade foi encontrar uma Pousada "decente" que tivesse opções de quarto no térreo e se eu poderia fazer passeios de Buggy (típicos do lugar). A dor também me tirou a capacidade de percorrer longas distâncias, então, preciso solicitar cadeira de rodas nos aeroportos a fim de que a viagem não seja inteiramente prejudicada. Os voos são decididos com base na aeronave em que faremos o trajeto e, obrigatoriamente, necessita ser realizada na primeira fileira, pois na primeira viagem que fiz pós-câncer que fui em um assento convencional, Jesus. Foi um suplício. Mas tudo bem, porque uma hora ia acabar.


Mas não acabou! Mesmo depois de ter acabado a químio e a imunoterapia, continuei sentindo dores e, para o meu azar, elas não foram diminuindo: elas foram aumentando. Aumentaram tanto a ponto de eu achar que estava ficando louca e que, de fato, as dores só existiam em minha cabeça.


A dor também me roubou a autoconfiança: Lidar com o julgamento e incompreensão das pessoas é uma coisa muito dolorosa, sobretudo quando você está fragilizado física e emocionalmente, pois qualquer coisa você entende como um ataque e um caroço de azeitona vira um caroço de abacate em instantes, e eu me pergunto: Cadê aquele mulherão da p**** que morava neste corpo? Cadê aquela mulher que fazia e acontecia, que era decidida, que tinha voz? Será que ela ainda existe? E a resposta é: eu não sei! Tenho a impressão que não.


Agora, minha dor, que antes era chamada de dor do câncer, mudou para dor da Fibromialgia e da Artrite Reumatoide (somada a todos os resquícios deixados pelo câncer), e, honestamente, eu não estou sabendo como lidar com isso. Percebo que os meus maiores gatilhos são os emocionais, mas...como ser feliz sentindo dor, pelo amor de Deus? Como sentir felicidade se você não consegue fazer as coisas que te deixavam feliz? Como vibrar de alegria quando você é refém da dor?


"Você precisa se aceitar". Realmente, eu preciso! Mas, socorro, eu não sei como fazer isso! Eu não reconheço esta realidade na qual estou inserida. Sinto uma tristeza profunda em não conseguir me reconhecer e me encontrar. Tenho a sensação de que meu esposo, meus pais e todos os que convivem mais intimamente comigo já têm em mim uma figura apática, sem energia vital, dependente. Como se fosse um peso. A dor me roubou de mim.


E isso é algo que quem não sente dor jamais conseguirá compreender.

Aos que chegaram até aqui, obrigada por me permitirem este desabafo!


Abraços fraternos,

Luana Cardoso.